Em tão pouco em tão nada afinal acredito
Só me empolga o rigor com que o digo e não digo.
(David Mourão-Ferreira)

Londres, novamente.

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.
(Fernando Pessoa, "Poesias")

Senhoras e senhores, eis o braço direito do Presidente Bush...

Este é um dos muitos ecopontos que existem ao pé de minha casa; foi fotografado hoje à tarde.
Onde os meus vizinhos depositam conscientemente as suas embalagens para reciclar....
... mesmo quando já não cabe mais nada....
... mesmo quando, obviamente, a Câmara já não passa para recolher e esvaziar há muito, muito tempo...
Seria útil, talvez, dar aulas de civismo aos fanáticos da reciclagem e aulas de eficiência prática aos serviços camarários...
"No segundo ano da era de Genroku (1689) comecei a minha longa viagem, por terras de Oou. Amedrontava-me o pensamento de ver os meus cabelos brancos em sítios tão longínquos, mas esta ideia era atenuada pela própria violência do desejo de as conhecer e dava-me esperanças de regressar com vida. Nesse mesmo dia cheguei à pousada de Soka. Doía-me o corpo do peso da carga que os meus fracos ossos suportavam. Para viajar deveria bastar-nos o nosso corpo; mas as noites reclamam um agasalho; a chuva, uma capa; o banho, um traje limpo; o pensamento, tinta e uma pena. E as prendas que não se podem recusar... As dávidas estorvam os viajantes."
Matsuo Bashô (1644-1694), "O Gosto Solitário do Orvalho", seguido de "O Caminho Estreito"
Assim não me sinto tão culpada do excesso de carga com que ando sempre atrás quando viajo... E principalmente do peso com que regresso...

Bem sei que esta é um clássico, mas não resisto porque gosto imenso desta fotografia; além disso deu-me imenso gozo tirá-la. Não foi fácil: chovia torrencialmente e a multidão era imensa...
Nova palavra para o dicionário de Português:
Santanice - acto ou acção de alguém que acaba sempre por prejudicar outro alguém e ser também ele prejudicado com esse acto ou acção, sem ter consciência disso. Forma de agir inopinada e irresponsável que prejudica toda a gente envolvida directa ou indirectamente na acção, sem que o autor tenha uma consciência absoluta das consequências dessa acção - "fez-lhe uma santanice", " acabou por se santanizar", "se disse isso, vai ser santanizado"; estupidez, parvoíce, inexperiência, irresponsabilidade de grande dimensão, efeito negativo de algo dito ou feito por um inconsciente com poder para o fazer.

Estas estavam à minha espera no Funchal...

Esta fachada é de uma casa em Ourém, na vila velha, mesmo encostada às muralhas.
Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragância da brisa de qualquer céu.
(Fernando Pessoa)

O Céu beijou a Terra e deixou-lhe impressa no rosto a sua efígie deslumbrante.
O Céu é a imagem da Terra, mas indefinida e transparente.
Noivam, todos os anos, o Céu e a Terra.
Teixeira de Pascoaes (1877-1952) - "O Pobre Tolo - Prosa e Poesia"
O mar de Porto Santo parece-me adequado para ilustrar este belissímo verso.

Continuando, pelos Açores, ainda na Ilha Terceira, esta casa ficava numa terra mesmo ao lado de Angra do Heroísmo de cujo nome não me lembro...

Descobri que pelos vistos gosto de fotografar casas... Não precisam de ser monumentos. Bastam simples casas. Estive a rever fotografias de viagens e constatei que tenho imensas de casas. Podem ser prédios de apartamentos, de escritórios, casas de famílias, igrejas, barracas, mas acabam sempre por ser casas. Casas de uma cidade que não começa nem acaba. Sem princípio nem fim. Casas de uma cidade que se espalha pelo mundo inteiro.
Começo aqui hoje uma nova série de fotografias com este tema.
Esta primeira é dos Açores, Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, a terra das minhas raízes paternas.

Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.
Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,
Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.
É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...
(Fernando Pessoa, in Poesias)