Depois de desfolhar as revistas Sábado e Visão, e já que o ano está a terminar, ficam aqui umas breves notas, tipo sumário, do que tem acontecido neste nosso país:
1 - Não, o facto de a Manuela Moura Guedes ter deixado de apresentar as notícias na TVI, não é uma tragédia. Não, ela não era boa loucutora, nem inteligente, nem oportuna. Ultimamente, aliada a uma aparência física a raiar o patético à custa de tanto esforço para se manter artificialmente e forçadamente jovem, havia uma jornalista inoportuna, a dizer piadas forçadas, sem graça e muitas vezes de mau gosto, com comentários despropositados e a transmitir um ar de falta de seriedade. Em boa hora terminou a saga...
2 - Mário Soares à força de querer transmitir uma imagem de "bon vivant", descontraído e experiente com um extremo à-vontade junto de tudo e todos, e uma mentalidade pseudo-jovem, revela uma figura também patética, ultrapassada e de uma arrogância excessiva, principalmente por não existirem bases para tanta arrogância... É tempo de se retirar novamente e ... definitivamente! Enquanto ainda conseguimos ter algumas recordações positivas, oriundas de um passado já distante.
3 - O silêncio e a descrição de Cavaco Silva, no meio do arrazoado de disparates e baboseiras debitadas em velocidade alucinante pelos outros candidatos, dá-lhe, até agora, 40% de vantagem. Mesmo assim, Sr. Prof. está na altura de nos começar a transmitir de forma mais assertiva o conteúdo do seu programa de candidatura. E abstraia dos cães que ladram...
4 - Jorge Coelho proferiu a calinada do ano quando apelou aos outros candidatos presidenciais de esquerda para desistirem a favor de Mário Soares; e isto não é uma opinião; é um facto comprovado pela indignação e ofensa do próprio Soares perante tal pedido...
5 - António Costa apercebeu-se finalmente que o equipamento de base dos polícias não incluía coletes à prova de bala e que eram os próprios que os custeavam... E apercebeu-se também que as armas estão "um bocadinho" ultrapassadas.... Foi pena que para isso tivesse de morrer (mais) um polícia! Será que finalmente acabamos com a cobardia moral de defender os brandos costumes e temos a coragem de lutar a sério e com impacto contra a escumalha (e antes que me comecem - novamente - a acusar de racismo, esclareço já que escumalha inclui todas as pessoas de TODAS as raças, credos, religiões, sexos e orientações políticas que seguem o caminho da delinquência e dos desrespeito pelas normas mais elementares de vida em sociedade. E não, a pobreza, a droga, o desemprego e a exclusão social não são definitivamente desculpa...!!!)?
6 - Querido Primeiro-Ministro, é urgente actuar contra o consumo de droga nas nossas prisões - nas últimas duas semanas houve 3 mortes por overdose, reparou?... Talvez menos safaris no Quénia e menos férias na neve na Suíça (ainda por cima caiu e magoou-se ...) e mais medidas pragmáticas, executivas e imediatas. O choque tecnológico tem também de ser um choque social pela positiva, sob pena de se perder muito do que já conseguiu até aqui...
Hoje é Dia de Natal, e mesmo para mim, sem crenças na religião católica, é impossível ficar indiferente à mensagem de amor e união entre os homens subjacente a este dia. Seria bom podermos pensar que tal mensagem é uma realidade. Não é!
Recomendo a leitura da excelente "crónica feminina" da Inês Pedrosa no Expresso desta semana (O Natal segundo Pôncio Pilatos). Tem a ver com a Vergonha absoluta de que falei aqui há uns dias.
Tem a ver com a fabulosa frase do Presidente da não menos fabulosa Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, sobre o caso da Fátima Letícia, a bébé de mês e meio em coma e em risco de vida depois de torturas e abusos sucessivos por parte dos progenitores biológicos.
Tem a ver com a vergonha absoluta de uma frase como a que se transcreve: "A Comissão agiu bem ao fazer tudo para que o bébé se mantivesse no seu meio natural de vida. Desta vez o sistema até funcionou, porque houve uma avó que tentou estar sempre presente e se preocupou, tendo denunciado tudo o que se passou".
A bébé está em coma, sofreu espancamentos vários desde que nasceu, o pai abusou sexualmente dela com diversos objectos, se ( e é um grande "se"...) sobreviver ficará com lesões neurológicas irreversíveis e o Dr. Armando Lenadro acha que o sistema funcionou!!!!!!! É extraordinário! Dele, confesso, não esperava uma frase destas. Acompanhei o seu percurso profissional durante muito tempo e tinha por ele a maior das considerações. Erradamente ao que vejo. Mais depressa se lhe perdoaria o reconhecimento de mais outra falha no sistema desta absolutamente incompetente e ineficaz Comissão, do que se pode perdoar esta cobarde tentativa de desresponsabilização e de deitar areia para os olhos dos outros... Absolutamente imperdoável!
Tal como a Inês Pedrosa, questiono-me porque é que os direitos das nossas crianças são menos importantes do que o Plano Teconógico. Só um país de saloios provincianos (em termos de mentalidades, claro) se preocupa em construir OTA's e TGV's quando nem sequer consegue assegurar o básico: a dignidade, a segurança e a própria vida das suas crianças.
Enquando houver Fátimas, Joanas, Vanessas, Danieis, Catarinas e outros tantos anónimos a sofrerem na pele situações destas e a pagarem com a vida a indiferença de um sistema de vergonha, Portugal nunca deixará de ser um país de opereta a querer fingir que é como o resto da Europa civilizada.
A minha vergonha é cada vez maior. E o sentimento de repugnância também...
Desculpem o tom tão pouco natalício, mas aquelas crianças também não puderam escolher um destino diferente do que tiveram!
Esta é a notícia tal como surge no "Diário Digital", de hoje:
"Pais de menina abusada ficam em prisão preventiva
Os pais da bebé de Viseu vítima de maus- tratos ficaram esta quarta-feira em prisão preventiva após um primeiro interrogatório judicial, disse à agência Lusa fonte do Tribunal de Viseu.
A medida de coacção, aplicada por igual à mãe e ao pai da bebé, de 20 e 22 anos, respectivamente, assenta nos «fortes indícios» de que eles serão autores dos crimes de abuso sexual de criança e ofensa à integridade física agravada. A vítima, com cerca de sete semanas de vida, encontra-se internada em estado grave no Hospital Pediátrico de Coimbra, desde sexta-feira, após ter sido observada no Hospital de Viseu.".
De manhã, na TSF informaram ainda que a criança (que está em estado de coma), estava a ser acompanhada por técnicos da Comissão de Protecção a Menores em Risco mas que tinham determinado que não havia perigo de vida para a criança, pelo que poderia continuar a residir com a família. Como em relação aos pais tinham algumas reservas, porém, a criança foi entregue aos cuidados da avó, que (mero detalhe...) vivia na mesma casa que os pais.
Uma decisão "inteligente" e "sensata", sem dúvida, reveladora de pouca ingenuidade e de muita experiência nestas matérias...
A criança tem 1 mês e meio.... Esteve várias vezes hospitalizada vítima de maus tratos e as verdadeiras bestas que são as técnicas da comissão de acompanhamento acham que não há razões de perigo de vida...!!!???? Portanto, o facto de ao longo de 50 dias de vida ter sido hospitalizada 4 vezes com sinais de maus tratos físicos diversos não é motivo para a retirar da família....????
Não esquecer que são as mesmas bestas (leia-se a mesma entidade, porque infelizmente as bestas são pessoas diferentes o que quer dizer que há muitas) que em Faro acharam que a Joana podia continuar com a mãe; resultado: criança assassinada.
As mesmas bestas que no Porto acharam que a Andreia podia viver com o pai e com a avó; resultado: criança assassinada...
As mesmas bestas incompetentes que por esse país fora deixam vítimas inocentes nas mãos de verdadeiros carniceiros.
Tenho nojo e vergonha disto tudo:
-deste país que é o recordista europeu de maus tratos a crianças;
-destes seres que fazem isto aos filhos;
- destas bestas incompetentes que são os técnicos destas comissões;
- destes governantes hipócritas que caso, após caso, após caso, continuam a dizer que está tudo bem, que erros de avaliação todos cometem e que estes técnicos são poucos e têm muito trabalho, coitaditos... mas fazem sempre o seu melhor;
- desta sociedade que finge ser civilizada e apta a viver numa Europa cultural e socialmente avançada, mas que não passa de uma horda de incompetentes.
É fácil errar com os filhos e com as famílias dos outros!
Por todas as crianças que já deixámos assassinar, por todas as que irão continuar a ser vítimas deste inferno, pela nossa cobardia e falta de dignidade, estou de luto.

Estas ficam na Baixa, no Chiado, e ligam a R. Ivens à R. Nova do Almada. Diz a tradição que dá azar falar enquanto se sobem ou descem este tipo de escadas e que não se deve parar a meio para descansar...
Há uns anos trabalhei em Alfama perto do Castelo de São Jorge e para vir até à Baixa, à hora do almoço, tinha umas escadinhas deste tipo como caminho mais rápido: as escadinhas de São Crispim. Descíamos sempre em silêncio forçado porque ninguém era supersticioso e essas coisas são uma valente parvoíce, mas a verdade é que nunca ninguém arriscava...
Quando voltávamos o silêncio era mais espontâneo porque subir de uma assentada os 200 e tal degraus parece fácil mas não é... Desconfio desde essa altura que a superstição do silêncio deve ter tido origem nalguém menos atleta que resolveu disfarçar as falhas respiratórias...

Aqui parece-me mais uma realidade do que o fabuloso livro do Gabriel García Marquez, cuja leitura recomendo vivamente.

Hoje estive de férias e aproveitei para fazer uma coisa que há muito tempo não fazia e me andava a apetecer imenso. Peguei na máquina e fui para a Baixa. Pode estar velha e em muitos sítios poderia estar muito mais bem arranjada, mas eu adoro a Baixa. Não sei se é por me lembrar a minha infância e adolescência ou simplesmente porque gosto mesmo daquele ambiente.
O dia pareceu durar muito mais do que quando entro no Colombo ou nas Amoreiras num "raid" de compras urgentes, sempre em contra relógio e aos encontrões...
Andei a passear, a entrar nas lojas (muito mais interessantes que as dos centros comerciais, mesmo as que são das mesmas marcas...). Tirei imensas fotografias, misturei-me com as centenas de turistas e com as centenas de habitantes dos bairros. Vi desfilar uma banda, entrei nas "clássicas" (Brasileira, Casa Macário, Casa das velas do Loreto, Bertrand...), explorei o potencial imobiliário daqueles prédios abandonados, vi o Tejo de dezenas de ângulos diferentes e de cada um achei-o mais fabuloso do que dos outros, encontrei produtos e lojas alternativas, vi um malabarista que comia fogo e um pedinte que tocava acordeão enquanto um mini cão dançava, ouvi um profeta anunciar o fim do mundo eminente, lanchei chá com scones, passei muito tempo nas livrarias e senti-me muito, muito bem.
E no fim, deliciei-me como uma criança com as iluminações de Natal...